sexta-feira, 12 de maio de 2017

Atendimento a Casais


Não existe hora certa para começar uma terapia de casal
O fundamental é reconhecer a insatisfação e evitar que as crises fiquem maiores ou se tornem crônicas. Se os problemas se arrastam há muito tempo, a taxa de sucesso diminui. Muitos casais adiam por causa da resistência dos homens – vários têm preconceito e não admitem em consultar terceiros.
A proposta é ajudar o casal a encontrar uma forma harmônica de se relacionar, restaurar os canais de comunicação e desbloquear as barreiras emocionais que foram impondo ao tentarem resolver suas diferenças, a possibilidade de um salto qualitativo no relacionamento. Mesmo que durante os ajustes, a dor e o desconforto sejam inevitáveis, é possível que o processo de restauração do relacionamento se mostre menos traumático, pois ambos terão espaço para se expressarem e refletir com novos elementos e ferramentas a serem descobertos junto com o terapeuta.
Quais as questões mais comuns no consultório?
Uns sofrem de tédio, outros estão cansados de tanta briga. Diferenças e desavenças entre casais é quase inevitável, e não precisam ser de todo ruins. A forma de discutir é que importa. Se há desrespeito, os envolvidos mal se ouvem e só querem atacar o outro, aí, sim, a briga é destrutiva e não leva a nada. As questões da comunicação e da sexualidade podem entrar em pauta e as fases de mudança – como a chegada dos filhos, mudança de emprego, amizades paralelas – testam os casais.
As reclamações que levam ao consultório são generalizadas, variando de ausência no cuidado em casa, no trato com os filhos, infidelidade conjugal, falta de confiança, questões sexuais, diferenças de opiniões, etc. 
Numa situação dessas, não cabe ao terapeuta impor uma “atitude certa” aos pacientes, e sim criar condições para que eles definam os próprios desejos e refaçam contratos.

Com sessões semanais, o prazo da terapia varia muito, a depender da disponibilidade de cada um e do desejo em avançar.

Eliezer Andrade é psicanalista clínico e atende Online e presencial em Natal/RN
+55 84 98802-0644 - pessoal
+55 84 98163-4595 - consultório

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domingo, 7 de maio de 2017

Psicanalista ou Psiquiatra?

Para muitos casos, como psicoses, casos graves de melancolia, depressão profunda, bipolaridade em grau avançado, etc., a medicalização é indicada e paliativa, evitando surtos, suicídio, passagens ao ato, etc., proporcionando estabilização do humor dando condições mínimas de segurança e possibilidade de prosseguir em análise. Mas é bom ter em mente que remédio não cura pensamento ou emoções, e ainda pode causar dependência, prolongando o sofrimento por anos a fio. Ambos devem conversar e estabelecer parceria para o bem do paciente.

Se o sofrimento ou a crise, foram disparados por um caso de decepção amorosa, desemprego, perda importante, o remédio não fará o mal retroceder, o emprego voltar, a perda anular-se ou as emoções melhorarem.
Nestes casos, a terapia é importante, paralelamente ao tratamento medicamentoso, pois ao falar de sua dor, seu sofrimento, sua perda, será possível elaborar sua construção subjetiva de modo a encontrar novos caminhos e saídas para retomar uma vida saudável e o convívio normal das emoções e pensamentos.

A grosso modo, subentende-se que o psiquiatra é especialista em medicalização, e o psicanalista, por assim dizer, objetiva as consequências da dor e do desamparo da experiencia devastadora dos traumas sentidos, abordando junto com o paciente, os sintomas e o mal-estar que provocam.
Mediante o avanço e devido progresso em análise, é comum o paciente ir aos poucos deixando o uso da medicação sem qualquer prejuízo, e sua vida segue com equilíbrio e liberdade.

Alguns casos patogênicos ou de causas genéticas, precisarão monitoração constante e cuidados especiais, mas isso deve ser visto e analisado em conjunto, pois mesmo nesses casos a dosagem pode ser diminuída e diferenciada pela qualidade do tratamento.

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sexta-feira, 7 de abril de 2017




Alienação/desalienação. 

Pela outra vertente da palavra “Alienação” que etimologicamente, tem origem no latim alienare (alienus) e significa: que pertence a outrem (a um outro). Por esta concepção, uma pessoa alienada é alguém que vive à margem de sua própria realidade sobrevivendo e se permitindo viver sob a tutela da realidade de outra pessoa. Quando nascemos, dependentes pela necessidade de sobrevivência somos logo alienados à “mãe” (Outro) a ponto de fusão das percepções e personalidade. A criança se percebe como extensão do corpo da mãe.


Aos poucos, se o ambiente produz espaço propício para que surja o gesto espontâneos criativo, e margem de segurança e autoconfiança suficiente para alçar-se ao novo e desconhecido mundo pela frente, o indivíduo vai aos poucos se separando, ou, desalienando-se do outro, em grande medida, do Outro maiúsculo, “Grande Outro”, que significa tudo o que lhe é externo ou alheio. A dependência ao Outro, gera uma série de sintomas, inibições e sofrimentos que se arrastam sem nome e sem localização pontual na vida impedindo sua completa realização e senso de pessoalidade. A individuação é um processo pelo qual é preciso ser resgatado por meio de análise e pela dinâmica de uma nova vida, onde o sujeito se torna desvinculado de vícios inconscientes e repetições que o constrangem a um pequeno círculo rotativo de estórias criadas pela sua própria fantasia de ser.

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segunda-feira, 13 de março de 2017


O ponto de vergonha
Sobre pagar micos

Um dos grandes problemas encontrados na clínica, durante as sessões de análise, são as experiências constrangedoras que as pessoas passaram ao longo da vida, por inexperiência, exposição desnecessárias, repreensões recebidas na infância de forma equivocada por parte dos cuidadores, onde poderiam ter chamado para um diálogo privado, punições restritivas públicas, erros cometidos por pura falta de experiência ou imaturidade, etc.
Quase ninguém sai ileso, ou permanece ileso destas lembranças que atormentam, inibem e causam embaraços sempre que algo surge associado àquela experiência, ou pelo contato com pessoas que evocam tais relações.
Antes de mais nada, é preciso falar sobre isso, mesmo dando voltas, justificando, elaborando e ressinificando um momento de imaturidade, infantilidade, assim, desmistificando a proporção dos fatos e sua repercussão atual.
Isso é possível na clínica, onde o ambiente é privado, seguro e totalmente sigiloso, onde o analista pode ouvir de forma totalmente neutro e isento, no tempo e no ritmo do paciente que aos poucos vai tirando de si o peso das amarguras e angústias desnecessárias e relatando ali diante do outro que não julga, não pune, não constrange, pelo contrário, maneja em conjunto para dar novos sentidos às lembranças negativas e aponta o analisando para alvos saudáveis e abrindo-lhe portas para a serenidade e a produtividade desbloqueando para o amor e para a vida.
Novos sentimentos fluirão e farão parte do dia a dia da pessoa naturalmente, sem que necessite empregar maiores esforços que até então vinham drenando suas emoções, com medo, vergonha, inseguranças, passando a produzir em lugar, força, entusiasmo, motivação e esperança para novos desafios.

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sábado, 16 de fevereiro de 2013



Prisão de ventre: o que médicos e nutricionistas não dizem


Não sei quantos de vocês chegaram até aqui em busca de informações sobre o tratamento da “prisão de ventre”, do “intestino preguiçoso”, enfim, desse mal próprio ao homem civilizado e que se caracteriza pela retenção aparentemente “involuntária” das fezes. Todavia, o texto é dedicado justamente a esses leitores. Mais do que uma dissertação sobre uma visão alternativa do fenômeno, este artigo tem o objetivo de auxiliar as pessoas que o enfrentam a se tratarem sem a necessidade de desembolsar alguns (ou muitos) copeques para uma ajuda profissional.
Vocês devem estar acostumados a ouvir profissionais especialmente da área de endocrinologia e nutrição discursarem a respeito da prisão de ventre caracterizando-a como um distúrbio do aparelho digestivo via de regra associado à baixa ingestão de fibras alimentares. “Coma mais mamão, mais ameixa, mais linhaça, mais aveia! Ou simplesmente esqueça tudo isso e tomeActivia!” dizem eles. E a cada dia as ações da Danone se valorizam às custas do intestino alheio.
Quando a alimentação não é suficiente para explicar a procrastinação intestinal, tais profissionais recorrem ao tratamento que atualmente ocupa o lugar em que as sangrias se alocavam nos séculos XVIII e XIX, ou seja, o espaço do tratamento “bom pra tudo”: o exercício físico. O sedentarismo – coincidentemente um pesadelo para a ideologia produtivista da economia atual – seria uma das causas das parcas idas ao banheiro. A idéia, portanto, é de que ao deixares a preguiça, teu intestino fará o mesmo.
Apesar de todo esse blábláblá, eu custo a crer que endocrinologistas e nutricionistas sejam seres tão tapados. Quero acreditar que eles pelo menos intuem que a coisa não passa apenas pelo domínio e restauração da máquina corporal. Não obstante reconheço que eles não são capazes de dar o braço a torcer e reconhecer que há um fantasma na máquina. E, precisamente por conta disso, recorrem àquela palavrinha mágica que salva todos os profissionais de saúde, principalmente os de segundo escalão do campo psi: o famigerado “stress”. Não vou gastar dezenas de kilobytes aqui justificando o caráter quimérico do conceito. Basta lhes dizer que se trata de um daqueles termos que explicam tudo e não explicam nada, como a tal “virose”, mais eficaz para a angústia dos médicos do que qualquer psicotrópico de última geração. De qualquer forma, o stress tem entrado na fórmula da etiologia da prisão de ventre – para o bem de todos e a felicidade geral da nação, pois, com essa inclusão, ficam contentes os médicos e nutricionistas para os quais o stress é um fenômeno orgânico (como tudo na vida, talvez diriam eles) e os profissionais psi que consideram estar sendo reconhecida a hipótese de uma causalidade emocional. Doce ilusão.
Explico. Não há lugar para o psíquico no modelo biomédico, o paradigma predominante no cuidado em saúde atual. O corpo é uma máquina cujo funcionamento é logicamente perfeito – é essa a hipótese de base desse modelo. Portanto, se há falha na máquina, é na máquina que devem ser feitas intervenções, modificando os insumos que lhe fornecem energia (mudança de hábitos alimentares), fazendo a máquina trabalhar mais (exercícios físicos) ou reformando alguns circuitos para que ela não apresente falhas por excesso de uso (controle do stress). Só assim a máquina poderá voltar a excretar normalmente os materiais inutilizados (e adeus prisão de ventre…).
A hipótese alternativa que apresentarei para entender e tratar a prisão de ventre demandará do leitor um total esquecimento – para não dizer uma forclusão – desse modelo. Sei que será difícil, pois, como toda ideologia, a visão do corpo como máquina gradualmente foi se transformando numa espécie de óculos permanentes de nossa visão sobre a saúde. Porém, faça o esforço. Tente por alguns instantes, isto é, até terminar de ler este texto, conceber o corpo como algo vivo, potente, que pensa e não como uma máquina que é ligada na concepção e desligada na morte. Sim, é isso mesmo. Pense no corpo como um corpo pensante. Esqueça, durante a leitura deste texto, daquilo que te ensinaram na escola – primária ou, principalmente, universitária – isto é, que corpo é uma coisa e mente é outra; que uma não tem nada a ver com a outra. Pense, a partir de agora, em corpo e mente apenas como duas simples palavras inventadas pelo homem para denotar dois modos diferentes de expressão do ser humano e que, por sinal, se expressam concomitantemente. Acho que essas bases conceituais serão suficientes para o entendimento do que virá a seguir. Se forem necessárias outras eu as apresentarei oportunamente.
A primeira conseqüência dessas premissas para o entendimento da prisão de ventre é a de que esse, como todo fenômeno do corpo, possui um sentido, na medida em que admitimos de antemão que toda manifestação corpórea possui um correspondente no campo do psiquismo. Esse é um dos pontos fundamentais de diferenciação entre os dois modos de tratar o fenômeno, pois no modelo biomédico, nenhuma doença possui significado; as enfermidades são apenas defeitos da máquina corporal.
Quando se fala em “sentido” da prisão de ventre, está sendo pressuposto que ela existe para cumprir certa finalidade, até porque, em última instância, nesse nosso modelo alternativo ao biomédico, o corpo é um modo de expressão do ser humano em sua totalidade. Em outras palavras, nossa hipótese é de que a prisão de ventre pode ser tomada como um acontecimento que serve para a expressão de algo. Essa proposição ficará mais clara na medida em que formos destrinchando esse modo alternativo de encarar a constipação intestinal.
Uma primeira questão que merece consideração diz respeito justamente àquilo que é retido na prisão de ventre, ou seja, as fezes. O que são as fezes? Para o modelo biomédico a resposta é simples: fezes são aglomerados de materiais descartados pelo organismo no processo de digestão dos alimentos. Não podemos negar a fidedignidade dessa resposta. No entanto, talvez ela careça de completude. De fato, as fezes são massas orgânicas. Todavia, elas também podem ser tomadas como coisas que oferecemos (ou não) ao mundo. É, por assim dizer, nosso mais primitivo produto (não por acaso, outrora se utilizava o termo “obrar” como forma jocosa de se referir à defecação).
Apesar de o processo de produção de excrementos ser um atributo comum a grande parte dos animais, na espécie humana ele adquire uma dimensão completamente nova. Nenhuma espécie, além da humana pede, exige, solicita, enfim, demanda de seus filhotes a produção das fezes. O imperativo para defecar é dado nas demais espécies a partir somente do organismo. No nosso caso, as coisas se passam de forma diferente: é clássica a cena da mãe no banheiro esperando o (a) filho (a) “produzir”. Nesse caso célebre, não se trata de uma espera passiva, que apenas contempla o tempo biológico da criança, mas de uma expectativa que demanda do sujeito a dádiva de suas fezes ao mundo.
Desde cedo, portanto, os excrementos adquirem para nós o significado de uma posse e, como toda posse, pode ser gasta ou não. Portanto, ao defecarmos não estamos apenas cumprindo o imperativo de necessidades fisiológicas. Estamos também, concomitantemente, expressando a seguinte mensagem ao mundo externo: “Eu lhe dou algo de mim.”. Quando dou algo a alguém, admito como premissa que esse alguém merece o presente e não se insurgirá contra mim ao recebê-lo. Com a excreção das fezes acontece da mesma forma. Se desde criancinhas somos ensinados que as fezes são presentes que damos à mãe (vide o orgulho da criança diante da mãe ao defecar pela primeira vez no penico), não podemos ir ao banheiro sem estar manifestando ao mesmo tempo nesse ato a decisão de dar ou não um produto ao mundo. Não é porque já não somos exigidos pela mãe que essa significação desaparece do ato de defecar. Gradualmente, o papel que outrora era exercido pela mãe, passa a sê-lo pelo patrão, pelo professor, pelo padre, pelo pastor, pela Igreja, pela Universidade, enfim, pelo mundo (é o tal grande Outro do Lacan) e as fezes permanecem como símbolos de uma dádiva.
A partir dessas premissas, um dos sentidos da prisão de ventre fica explícito: trata-se de um modo corporal de expressão de um relacionamento conflitivo entre o sujeito e o Outro. É como se ao reter as fezes o indivíduo estivesse dizendo ao mundo: “Não posso (ou não quero) te dar nada.”. O Outro pode ter se tornado no relacionamento com o sujeito, não digno de receber seu produto, seja porque o sujeito se considere muito para o Outro ou imagine que o Outro não será capaz de apreciar devidamente seu presente. Pode acontecer também que o sujeito considere o Outro potencialmente perigoso, vingativo, de tal modo que não é aconselhável oferecer-lhe nada.
Outra possibilidade é a de que a prisão de ventre se torne a ocasião de manifestação de uma teimosia ou obstinação. Quando crianças, uma das formas de nos vingarmos da mãe por algo desagradável que ela nos fez (e toda criança sabe disso) é justamente frustrando suas expectativas sobre nosso processo de excreção, fazendo com que ela fique horas na porta do banheiro esperando que a gente “faça”. Essa criança que teima em não defecar para irritar a mãe nunca desaparece de nós. O que acontece é que a mãe, como eu disse antes, passa a ser representada por outras pessoas ao longo de nossa vida. Se fizéssemos uma pequena pesquisa empírica nas empresas, ficaríamos surpresos com os modos distintos de funcionamento intestinal dos funcionários satisfeitos e dos insatisfeitos com o patrão. É em função disso que os médicos dizem que o stress é um dos fatores que atuam na constipação intestinal. Ora, funcionários insatisfeitos com o patrão evidentemente sofrerão de ansiedade, cansaço, falta de vontade (sintomas do unicórnio chamado stress). No entanto, a prisão de ventre não é causada por esses sintomas. Ela, como eles, é um efeito da relação conflituosa entre o funcionário e o patrão. Ela é, por assim dizer, a expressão na carne do desejo do empregado de não produzir para um patrão que o desagrada, ou seja, de frustrar as expectativas da mãe encarnada no patrão.
Quando o desejo não é frustrar, mas exatamente o oposto, isto é, produzir, a vontade de defecar advém mesmo no mais sedentário dos sujeitos. Tive um paciente que toda vez que tinha uma ideia nova ou conseguia escrever algumas páginas – ele era acadêmico – sentia uma ânsia irresistível de ir ao banheiro. Na medida em que sua mente conseguia produzir conteúdos intelectuais, seu corpo imediatamente sentia a necessidade de produzir conteúdos intestinais. Os produtos são diferentes mas a lógica que os regula é a mesma.
Portanto, caro (a) leitor (a), antes de se esbaldar nos Activias da vida ou entupir seu sistema digestivo de fibras, pense um pouco sobre seu corpo e, principalmente, sobre como anda sua relação com o mundo. Tente lembrar-se de suas insatisfações e desagrados. Em Minas, é comum o uso da expressão “enfezado” para se referir a alguém possesso de raiva. Sim, “enfezado” significa cheio de fezes e o uso da expressão não está atrelado apenas à sensação de irritação que a maioria das pessoas experimenta ao ficarem longos períodos sem ir ao banheiro. O termo “enfezado” também pode ser lido como a expressão lingüística do sentido mais profundo da prisão de ventre. De fato, a manifestação no corpo de um sujeito que está, por assim dizer, “de mal com o mundo” ou com algum aspecto do mundo é o “enfezamento”, ou seja, o acúmulo de fezes no intestino.
O desejo de reter algo que poderia ser dado ao mundo não é o único sentido e finalidade possível da prisão de ventre. Na segunda parte desse texto enfocarei outros usos a que se presta o fenômeno. De todo modo, penso que já foi possível levar o leitor a uma mudança no modo de encarar suas idas frustradas ao trono – e ajudá-lo. Antes de terminar esse primeiro segmento, gostaria de deixar claro que toda essa nova visão sobre a constipação intestinal tem como referência a obra de Georg Groddeck, a qual constitui atualmente meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva. Todas essas ideias, portanto, não foram tiradas de trás da orelha, mas estão fundamentadas em dezenas de anos de prática psicoterapêutica desse autor, cuja riqueza teórica gradualmente será revelada.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

INVEJA NOSSA DE CADA DIA


INVEJA NOSSA DE CADA DIA
Comparação

por Eliezer Z Andrade

“O bebê inveja a mãe pelo poder que ele imagina que ela tem” - M.Klein
Segundo Antônio Roberto Soares - a comparação é a estrutura-mãe da inveja, é o seu mecanismo básico. A Inveja é a vivência de um sentimento interior sob a forma de frustração, tristeza, mal-estar, acanhamento, por nos sentirmos menores do que alguém, menos do que o outro, por não possuirmos o que o outro possui, por não sermos o que o outro é. Desequilíbrio íntimo oriundo de sentimento de inferioridade, fruto da comparação que fizemos entre nós e o outro em algum aspecto específico.
O bebê quando olha para o seio da mãe e decide que o seio tem tudo e ele não tem nada, desprovido de leite do qual depende, está pondo em ação este mecanismo de comparação, se guiando por ele para admitir que a solução é ao mesmo tempo destruir o seio para o outro e apropriar-se dele para sentir-se pleno, tornando-se detentor de tudo, autossuficiente, onipotente.
Um dos mecanismos de defesa mais comuns neste caso é quando ao nos sentir menores que os outros, aumentamos, vangloriamos, enaltecemos a nós mesmos para evitar o mal-estar do desequilíbrio, tentamos parecer mais altos, mais fortes e mais inteligentes. Falamos excessivamente bem do que é nosso e ao mesmo tempo, procuramos diminuir o outro através da crítica. É possível dizer que arrogante é aquele que parte do pressuposto de que sente-se inferior aos demais.
A inveja é o sentimento daqueles que não encontraram respostas para a diversidade do mundo e das pessoas, é a auto-aversão por não ser como os outros, sentimento de exclusão, não pertencimento. O que há de negativo em primeiro plano na inveja é a auto rejeição e auto depreciação interna, em algum aspecto do seu modo de estar na vida, de se representar, do seu próprio tamanho.
O paradigma atual em toda a sociedade é baseado na comparação; toda a nossa cultura é permeada pela comparação. Como tudo está em relação entre si, só conseguimos perceber as pessoas e as coisas em comparação umas com as outras e por modo associativo.
Sempre houve alguém na nossa história familiar que em um ou noutro momento nos foi apontado como padrão ou a quem fomos apontados como modelo. É imensa a carga de comparação a que somos diariamente submetidos.
Neste ponto intervenho para asseverar que de certa forma não há escapatória da inveja, visto nascermos em condição prematura, portanto precária, necessitando do outro para sobrevivência e construção de nossas referencias e matrizes. O sujeito se constitui no e do outro.
Os modelos de início, fundamentais à percepção e introjeção dos objetos necessários à formação do ego e do Self tem na comparação parâmetro de identificação objetal e posterior cisão entre estes e o ego, a desidentificação, tendo como pré-condição a ponderação entre objetos bons e maus, isto é, o que dá prazer e o que não dá prazer.
A escola como instituição tem seu sistema educacional baseado na comparação. Primeiro lugar, segundo lugar, último lugar, classes mais adiantadas, classes mais atrasadas, notas, avaliações, classificações, etc. a estrutura é totalmente baseada em padrões de comparação, disputas e prevalência da meritocracia precoce sem critério amplo e subjetivo.
Em nossa cultura, toda propaganda na mídia é baseada em processos comparativos entre nós e os modelos propostos. A trama-base de qualquer propaganda consiste em que olhemos alguém no vídeo, por exemplo, com todas as qualidades de riqueza, poder, prestígio, inteligência, dinamismo, beleza, força e magnetismo pessoal, nos comparemos com os ambientes e pessoas apresentados, que nos sintamos inferiores, magoados e diminuídos e em seguida, é-nos apresentada a solução para resolver o mal-estar: a compra de algum produto que nos fará iguais aos padrões apresentados! Não há dúvidas quanto ao nosso envolvimento social na comparação.
Boa lição apreendemos do Judô, o qual apoia-se na força do adversário e a utiliza em seu favor, indicando que podemos utilizar a força da comparação em nosso favor e não contra, pois os principais prejudicados na inveja patológica não são os outros, mas nós mesmos, apesar de início nos utilizarmos dela em seu aspecto como fator constitutivo.
Podemos sintetizar a inveja atual como o sentimento de rejeição corporal, psicológica, financeira, social, profissional e espiritual causando dependência moral e nos alienando ao “outro”, turbando nossa subjetividade.
Numa definição patológica, o Invejoso é aquele que, ao invés de sentir prazer com o que é ou tem, sofre com o que não é e com o que não tem. Uma das saídas pode ser a auto comparação, é claro que isso é possível num plano secundário, por isso estamos falando de inveja nos dias de hoje, viés sociológico, pressupondo pessoas com a base da psiquê formada. No plano individual e pessoal, a análise tem papel fundamental no processo de desidentificação e desalienação do sujeito.
Na auto-comparação, fortalecemos o self, nosso centro, ponto de equilíbrio. Passamos a nos dirigir a partir de dentro, em função do que realmente somos e não em função do que os outros são, do que poderíamos ser ou que esperam de nós.  A auto comparação é importante na medida em que com certa maturidade temos os elementos e as ferramentas adequadas para fazê-la sem distorções. Neste ponto a ajuda de um terapeuta é importante, pois proporciona balizamento equilibrado de nossas funções internas, nossa posição em relação ao sofrimento causado pela inveja em nós e no outro e como nos relacionamos com o desejo.
Por meio da auto comparação fortalecemos nossa identidade, reencontramos a nós mesmos, passamos a ser nosso próprio ponto de referencia, conquistando autonomia do ser. Cada pessoa tem seu ritmo, seu jeito, seu caminho, seu ponto de vista. Não estamos no mundo para sermos mais ou menos do que alguém, mas para realizar o próprio potencial, ser cada vez melhores, comparados a nós mesmos.
No fundo de cada sentimento de inveja, existe o sentimento de admiração, mas este só pode germinar quando centrado em nossa própria estatura, se estivermos em postura de aceitação pelo que somos, pelo que temos, pois admiração pelos outros mais tristeza de nós mesmos, é a inveja.
Beirando uma avaliação moral, amigo é o que fica alegre com a alegria do outro. O invejoso tenta roubar a luz, a alegria do outro porque não tem, e na insistência, uma atitude socialmente inaceitável não sendo resolvida internamente, acaba sendo concebida pelo indivíduo como aceitável e introduzida no convívio social causando conflitos permanentes e isolamento.
Melhor é tentar ser o melhor que pode, sendo você mesmo, e assim, produzir e amar.

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