Prisão de ventre: o que médicos e nutricionistas não dizem
por Lucas
Nápoli
Não
sei quantos de vocês chegaram até aqui em busca de informações sobre o
tratamento da “prisão de ventre”, do “intestino preguiçoso”, enfim, desse mal
próprio ao homem civilizado e que se caracteriza pela retenção aparentemente
“involuntária” das fezes. Todavia, o texto é dedicado justamente a esses
leitores. Mais do que uma dissertação sobre uma visão alternativa do fenômeno,
este artigo tem o objetivo de auxiliar as pessoas que o enfrentam a se tratarem
sem a necessidade de desembolsar alguns (ou muitos) copeques para uma ajuda
profissional.
Vocês devem estar acostumados a ouvir profissionais
especialmente da área de endocrinologia e nutrição discursarem a respeito da
prisão de ventre caracterizando-a como um distúrbio do aparelho digestivo via
de regra associado à baixa ingestão de fibras alimentares. “Coma mais mamão, mais ameixa, mais linhaça, mais aveia! Ou
simplesmente esqueça tudo isso e tomeActivia!” dizem eles. E a cada dia as ações da Danone se
valorizam às custas do intestino alheio.
Quando a alimentação não é suficiente para explicar
a procrastinação intestinal, tais profissionais recorrem ao tratamento que
atualmente ocupa o lugar em que as sangrias se alocavam nos séculos XVIII e
XIX, ou seja, o espaço do tratamento “bom pra tudo”: o exercício físico. O
sedentarismo – coincidentemente um pesadelo para a ideologia produtivista da
economia atual – seria uma das causas das parcas idas ao banheiro. A idéia,
portanto, é de que ao deixares a preguiça, teu intestino fará o mesmo.
Apesar de todo esse blábláblá, eu custo a crer que
endocrinologistas e nutricionistas sejam seres tão tapados. Quero acreditar que
eles pelo menos intuem que a coisa não passa apenas pelo domínio e restauração
da máquina corporal. Não obstante reconheço que eles não são capazes de dar o
braço a torcer e reconhecer que há um fantasma na máquina.
E, precisamente por conta disso, recorrem àquela palavrinha mágica que
salva todos os profissionais de saúde, principalmente os de segundo escalão do
campo psi: o famigerado “stress”. Não vou
gastar dezenas de kilobytes aqui justificando o caráter quimérico do conceito.
Basta lhes dizer que se trata de um daqueles termos que explicam tudo e não
explicam nada, como a tal “virose”, mais eficaz para a angústia dos médicos do
que qualquer psicotrópico de última geração. De qualquer forma, o stress tem
entrado na fórmula da etiologia da prisão de ventre – para o bem de todos e a
felicidade geral da nação, pois, com essa inclusão, ficam contentes os médicos
e nutricionistas para os quais o stress é um fenômeno orgânico (como tudo na
vida, talvez diriam eles) e os profissionais psi que consideram estar sendo
reconhecida a hipótese de uma causalidade emocional. Doce ilusão.
Explico. Não
há lugar para o psíquico no modelo biomédico, o
paradigma predominante no cuidado em saúde atual. O corpo é uma máquina cujo
funcionamento é logicamente perfeito – é essa a hipótese de base desse modelo.
Portanto, se há falha na máquina, é na máquina que devem ser feitas
intervenções, modificando os insumos que lhe
fornecem energia (mudança de hábitos alimentares), fazendo a máquina trabalhar
mais (exercícios físicos) ou reformando alguns circuitos para que ela não
apresente falhas por excesso de uso (controle do stress). Só assim a máquina
poderá voltar a excretar normalmente os materiais inutilizados (e adeus prisão
de ventre…).
A hipótese alternativa que apresentarei para
entender e tratar a prisão de ventre demandará do leitor um total esquecimento
– para não dizer uma forclusão – desse modelo. Sei que será difícil, pois, como
toda ideologia, a visão do corpo como máquina gradualmente foi se transformando
numa espécie de óculos permanentes de nossa visão sobre a saúde. Porém, faça o
esforço. Tente por alguns instantes, isto é, até terminar de ler este texto,
conceber o corpo como algo vivo, potente, que pensa e não como uma máquina que
é ligada na concepção e desligada na morte. Sim, é isso mesmo. Pense no corpo
como um corpo pensante. Esqueça, durante a leitura deste texto, daquilo que te
ensinaram na escola – primária ou, principalmente, universitária – isto é, que
corpo é uma coisa e mente é outra; que uma não tem nada a ver com a outra.
Pense, a partir de agora, em corpo e mente apenas como duas simples palavras
inventadas pelo homem para denotar dois modos diferentes de expressão do ser
humano e que, por sinal, se expressam concomitantemente. Acho que essas bases
conceituais serão suficientes para o entendimento do que virá a seguir. Se
forem necessárias outras eu as apresentarei oportunamente.
A primeira conseqüência dessas premissas para o
entendimento da prisão de ventre é a de que esse, como todo fenômeno do corpo,
possui um sentido, na medida em que admitimos de antemão que toda manifestação
corpórea possui um correspondente no campo do psiquismo. Esse é um dos pontos
fundamentais de diferenciação entre os dois modos de tratar o fenômeno, pois no
modelo biomédico, nenhuma doença possui significado; as enfermidades são apenas
defeitos da máquina corporal.
Quando se fala em “sentido” da prisão de ventre,
está sendo pressuposto que ela existe para cumprir certa finalidade, até
porque, em última instância, nesse nosso modelo alternativo ao biomédico, o
corpo é um modo de expressão do ser humano em sua totalidade. Em outras
palavras, nossa hipótese é de que a prisão de ventre pode ser tomada como um
acontecimento que serve para a expressão de algo. Essa proposição ficará mais
clara na medida em que formos destrinchando esse modo alternativo de encarar a
constipação intestinal.
Uma primeira questão que merece consideração diz
respeito justamente àquilo que é retido na prisão de ventre, ou seja, as fezes.
O que são as fezes? Para o modelo biomédico a resposta é simples: fezes são
aglomerados de materiais descartados pelo organismo no processo de digestão dos
alimentos. Não podemos negar a fidedignidade dessa resposta. No entanto, talvez
ela careça de completude. De fato, as fezes são massas orgânicas. Todavia, elas
também podem ser tomadas como coisas que oferecemos (ou não) ao mundo. É, por
assim dizer, nosso mais primitivo produto (não por acaso, outrora se utilizava
o termo “obrar” como forma jocosa de se referir à defecação).
Apesar de o processo de produção de excrementos ser
um atributo comum a grande parte dos animais, na espécie humana ele adquire uma
dimensão completamente nova. Nenhuma espécie, além da humana pede, exige,
solicita, enfim, demanda de seus filhotes a produção das fezes. O imperativo
para defecar é dado nas demais espécies a partir somente do organismo. No nosso
caso, as coisas se passam de forma diferente: é clássica a cena da mãe no
banheiro esperando o (a) filho (a) “produzir”. Nesse caso célebre, não se trata
de uma espera passiva, que apenas contempla o tempo biológico da criança, mas
de uma expectativa que demanda do sujeito a dádiva de suas fezes ao mundo.
Desde cedo, portanto, os excrementos adquirem para nós o significado de uma posse e, como toda
posse, pode ser gasta ou não. Portanto, ao defecarmos não estamos apenas
cumprindo o imperativo de necessidades fisiológicas. Estamos também,
concomitantemente, expressando a seguinte mensagem ao mundo externo: “Eu lhe dou algo de mim.”. Quando dou algo a alguém, admito como premissa que
esse alguém merece o presente e não se
insurgirá contra mim ao recebê-lo. Com a excreção das fezes acontece da mesma
forma. Se desde criancinhas somos ensinados que as fezes são presentes que
damos à mãe (vide o orgulho da criança diante da mãe ao defecar pela primeira
vez no penico), não podemos ir ao banheiro sem estar manifestando ao mesmo
tempo nesse ato a decisão de dar ou não um produto ao mundo. Não é porque já
não somos exigidos pela mãe que essa significação desaparece do ato de defecar.
Gradualmente, o papel que outrora era exercido pela mãe, passa a sê-lo pelo
patrão, pelo professor, pelo padre, pelo pastor, pela Igreja, pela
Universidade, enfim, pelo mundo (é o tal grande Outro do Lacan) e as fezes
permanecem como símbolos de uma dádiva.
A partir dessas premissas, um dos sentidos da prisão de ventre fica explícito: trata-se de um modo
corporal de expressão de um relacionamento conflitivo entre o sujeito e o
Outro. É como se ao reter as fezes o indivíduo estivesse dizendo ao mundo: “Não posso (ou não quero) te dar nada.”. O Outro pode ter se
tornado no relacionamento com o sujeito, não digno de receber seu produto, seja porque o sujeito se considere muito para o
Outro ou imagine que o Outro não será capaz de apreciar devidamente seu
presente. Pode acontecer também que o sujeito considere o Outro potencialmente
perigoso, vingativo, de tal modo que não é aconselhável oferecer-lhe nada.
Outra possibilidade é a de que a prisão de ventre se torne a ocasião de
manifestação de uma teimosia ou obstinação.
Quando crianças, uma das formas de nos vingarmos da mãe por
algo desagradável que ela nos fez (e toda criança sabe disso) é justamente
frustrando suas expectativas sobre nosso processo de excreção, fazendo com que
ela fique horas na porta do banheiro esperando que a gente “faça”. Essa criança que teima em não defecar para irritar a mãe nunca desaparece de nós. O que acontece é que a mãe, como eu disse antes,
passa a ser representada por outras pessoas ao longo de nossa vida. Se
fizéssemos uma pequena pesquisa empírica nas empresas, ficaríamos surpresos com
os modos distintos de funcionamento intestinal dos funcionários satisfeitos e
dos insatisfeitos com o patrão. É em função disso que os médicos dizem que o
stress é um dos fatores que atuam na constipação intestinal. Ora, funcionários
insatisfeitos com o patrão evidentemente sofrerão de ansiedade, cansaço, falta
de vontade (sintomas do unicórnio chamado stress). No entanto, a prisão de
ventre não é causada por esses sintomas. Ela, como eles, é um efeito da relação
conflituosa entre o funcionário e o patrão. Ela é, por assim dizer, a expressão
na carne do desejo do empregado de não produzir para
um patrão que o desagrada, ou seja, de frustrar as expectativas da mãe
encarnada no patrão.
Quando o desejo não é frustrar, mas exatamente o
oposto, isto é, produzir, a vontade de defecar advém mesmo no mais sedentário
dos sujeitos. Tive um paciente que toda vez que tinha uma ideia nova ou
conseguia escrever algumas páginas – ele era acadêmico – sentia uma ânsia
irresistível de ir ao banheiro. Na medida em que sua mente conseguia produzir
conteúdos intelectuais, seu corpo imediatamente sentia a necessidade de
produzir conteúdos intestinais. Os produtos são diferentes mas a lógica que os
regula é a mesma.
Portanto, caro (a) leitor (a), antes de se esbaldar
nos Activias da vida ou entupir seu sistema digestivo
de fibras, pense um pouco sobre seu corpo e, principalmente, sobre como anda
sua relação com o mundo. Tente lembrar-se de suas insatisfações e desagrados.
Em Minas, é comum o uso da expressão “enfezado”
para se referir a alguém possesso de raiva. Sim, “enfezado” significa cheio de
fezes e o uso da expressão não está
atrelado apenas à sensação de irritação que a maioria das pessoas experimenta
ao ficarem longos períodos sem ir ao banheiro. O termo “enfezado” também pode
ser lido como a expressão lingüística do sentido mais profundo da prisão de
ventre. De fato, a manifestação no corpo de um sujeito que está, por assim
dizer, “de mal com o mundo” ou com algum aspecto do mundo é o “enfezamento”, ou
seja, o acúmulo de fezes no intestino.
O desejo de reter algo que poderia ser dado ao mundo não é o único
sentido e finalidade possível da prisão de ventre. Na segunda parte desse texto enfocarei outros usos
a que se presta o fenômeno. De todo modo, penso que já foi possível levar o
leitor a uma mudança no modo de encarar suas idas frustradas ao trono – e
ajudá-lo. Antes de terminar esse primeiro segmento, gostaria de deixar claro
que toda essa nova visão sobre a constipação intestinal tem como referência a
obra de Georg Groddeck, a qual constitui atualmente meu objeto
de estudo no mestrado em Saúde Coletiva. Todas essas ideias, portanto, não
foram tiradas de trás da orelha, mas estão fundamentadas em dezenas de anos de
prática psicoterapêutica desse autor, cuja riqueza teórica gradualmente será
revelada.
Eliezer Andrade é psicanalista clínico e atende Online e presencial em Natal/RN
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