INVEJA
NOSSA DE CADA DIA
Comparação
por Eliezer Z Andrade
Comparação
por Eliezer Z Andrade
“O
bebê inveja a mãe pelo poder que ele imagina que ela tem” - M.Klein
Segundo Antônio Roberto
Soares - a comparação é a estrutura-mãe da inveja, é o seu mecanismo básico. A
Inveja é a vivência de um sentimento interior sob a forma de frustração, tristeza,
mal-estar, acanhamento, por nos sentirmos menores do que alguém, menos do que o
outro, por não possuirmos o que o outro possui, por não sermos o que o outro é.
Desequilíbrio íntimo oriundo de sentimento de inferioridade, fruto da
comparação que fizemos entre nós e o outro em algum aspecto específico.
O bebê quando olha para o
seio da mãe e decide que o seio tem tudo e ele não tem nada, desprovido de
leite do qual depende, está pondo em ação este mecanismo de comparação, se
guiando por ele para admitir que a solução é ao mesmo tempo destruir o seio
para o outro e apropriar-se dele para sentir-se pleno, tornando-se detentor de
tudo, autossuficiente, onipotente.
Um dos mecanismos de defesa
mais comuns neste caso é quando ao nos sentir menores que os outros,
aumentamos, vangloriamos, enaltecemos a nós mesmos para evitar o mal-estar do
desequilíbrio, tentamos parecer mais altos, mais fortes e mais inteligentes.
Falamos excessivamente bem do que é nosso e ao mesmo tempo, procuramos diminuir
o outro através da crítica. É possível dizer que arrogante é aquele que parte
do pressuposto de que sente-se inferior aos demais.
A inveja é o sentimento
daqueles que não encontraram respostas para a diversidade do mundo e das
pessoas, é a auto-aversão por não ser como os outros, sentimento de exclusão,
não pertencimento. O que há de negativo em primeiro plano na inveja é a auto rejeição
e auto depreciação interna, em algum aspecto do seu modo de estar na vida, de
se representar, do seu próprio tamanho.
O paradigma atual em toda a sociedade
é baseado na comparação; toda a nossa cultura é permeada pela comparação. Como
tudo está em relação entre si, só conseguimos perceber as pessoas e as coisas
em comparação umas com as outras e por modo associativo.
Sempre houve alguém na nossa
história familiar que em um ou noutro momento nos foi apontado como padrão ou a
quem fomos apontados como modelo. É imensa a carga de comparação a que somos
diariamente submetidos.
Neste ponto intervenho para
asseverar que de certa forma não há escapatória da inveja, visto nascermos em
condição prematura, portanto precária, necessitando do outro para sobrevivência
e construção de nossas referencias e matrizes. O sujeito se constitui no e do
outro.
Os modelos de início, fundamentais à percepção e introjeção dos
objetos necessários à formação do ego e do Self tem na comparação parâmetro de identificação
objetal e posterior cisão entre estes e o ego, a desidentificação, tendo como pré-condição
a ponderação entre objetos bons e maus, isto é, o que dá prazer e o que não dá
prazer.
A escola como instituição
tem seu sistema educacional baseado na comparação. Primeiro lugar, segundo
lugar, último lugar, classes mais adiantadas, classes mais atrasadas, notas,
avaliações, classificações, etc. a estrutura é totalmente baseada em padrões de
comparação, disputas e prevalência da meritocracia precoce sem critério amplo e
subjetivo.
Em nossa cultura, toda
propaganda na mídia é baseada em processos comparativos entre nós e os modelos propostos.
A trama-base de qualquer propaganda consiste em que olhemos alguém no vídeo,
por exemplo, com todas as qualidades de riqueza, poder, prestígio,
inteligência, dinamismo, beleza, força e magnetismo pessoal, nos comparemos com
os ambientes e pessoas apresentados, que nos sintamos inferiores, magoados e
diminuídos e em seguida, é-nos apresentada a solução para resolver o mal-estar:
a compra de algum produto que nos fará iguais aos padrões apresentados! Não há
dúvidas quanto ao nosso envolvimento social na comparação.
Boa lição apreendemos do
Judô, o qual apoia-se na força do adversário e a utiliza em seu favor, indicando
que podemos utilizar a força da comparação em nosso favor e não contra, pois os
principais prejudicados na inveja patológica não são os outros, mas nós mesmos,
apesar de início nos utilizarmos dela em seu aspecto como fator constitutivo.
Podemos sintetizar a inveja
atual como o sentimento de rejeição corporal, psicológica, financeira, social,
profissional e espiritual causando dependência moral e nos alienando ao “outro”,
turbando nossa subjetividade.
Numa definição patológica, o
Invejoso é aquele que, ao invés de sentir prazer com o que é ou tem, sofre com
o que não é e com o que não tem. Uma das saídas pode ser a auto comparação, é
claro que isso é possível num plano secundário, por isso estamos falando de
inveja nos dias de hoje, viés sociológico, pressupondo pessoas com a base da
psiquê formada. No plano individual e pessoal, a análise tem papel fundamental
no processo de desidentificação e desalienação do sujeito.
Na auto-comparação,
fortalecemos o self, nosso centro, ponto de equilíbrio. Passamos a nos dirigir
a partir de dentro, em função do que realmente somos e não em função do que os
outros são, do que poderíamos ser ou que esperam de nós. A auto comparação é importante na medida em
que com certa maturidade temos os elementos e as ferramentas adequadas para
fazê-la sem distorções. Neste ponto a ajuda de um terapeuta é importante, pois
proporciona balizamento equilibrado de nossas funções internas, nossa posição
em relação ao sofrimento causado pela inveja em nós e no outro e como nos
relacionamos com o desejo.
Por meio da auto comparação fortalecemos
nossa identidade, reencontramos a nós mesmos, passamos a ser nosso próprio
ponto de referencia, conquistando autonomia do ser. Cada pessoa tem seu ritmo,
seu jeito, seu caminho, seu ponto de vista. Não estamos no mundo para sermos
mais ou menos do que alguém, mas para realizar o próprio potencial, ser cada
vez melhores, comparados a nós mesmos.
No fundo de cada sentimento
de inveja, existe o sentimento de admiração, mas este só pode germinar quando centrado
em nossa própria estatura, se estivermos em postura de aceitação pelo que
somos, pelo que temos, pois admiração pelos outros mais tristeza de nós mesmos,
é a inveja.
Beirando uma avaliação moral,
amigo é o que fica alegre com a alegria do outro. O invejoso tenta roubar a
luz, a alegria do outro porque não tem, e na insistência, uma atitude
socialmente inaceitável não sendo resolvida internamente, acaba sendo concebida
pelo indivíduo como aceitável e introduzida no convívio social causando
conflitos permanentes e isolamento.
Melhor é tentar ser o melhor
que pode, sendo você mesmo, e assim, produzir e amar.
Eliezer Andrade é psicanalista clínico e atende Online e presencial em Natal/RN
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