segunda-feira, 20 de agosto de 2012

INVEJA NOSSA DE CADA DIA


INVEJA NOSSA DE CADA DIA
Comparação

por Eliezer Z Andrade

“O bebê inveja a mãe pelo poder que ele imagina que ela tem” - M.Klein
Segundo Antônio Roberto Soares - a comparação é a estrutura-mãe da inveja, é o seu mecanismo básico. A Inveja é a vivência de um sentimento interior sob a forma de frustração, tristeza, mal-estar, acanhamento, por nos sentirmos menores do que alguém, menos do que o outro, por não possuirmos o que o outro possui, por não sermos o que o outro é. Desequilíbrio íntimo oriundo de sentimento de inferioridade, fruto da comparação que fizemos entre nós e o outro em algum aspecto específico.
O bebê quando olha para o seio da mãe e decide que o seio tem tudo e ele não tem nada, desprovido de leite do qual depende, está pondo em ação este mecanismo de comparação, se guiando por ele para admitir que a solução é ao mesmo tempo destruir o seio para o outro e apropriar-se dele para sentir-se pleno, tornando-se detentor de tudo, autossuficiente, onipotente.
Um dos mecanismos de defesa mais comuns neste caso é quando ao nos sentir menores que os outros, aumentamos, vangloriamos, enaltecemos a nós mesmos para evitar o mal-estar do desequilíbrio, tentamos parecer mais altos, mais fortes e mais inteligentes. Falamos excessivamente bem do que é nosso e ao mesmo tempo, procuramos diminuir o outro através da crítica. É possível dizer que arrogante é aquele que parte do pressuposto de que sente-se inferior aos demais.
A inveja é o sentimento daqueles que não encontraram respostas para a diversidade do mundo e das pessoas, é a auto-aversão por não ser como os outros, sentimento de exclusão, não pertencimento. O que há de negativo em primeiro plano na inveja é a auto rejeição e auto depreciação interna, em algum aspecto do seu modo de estar na vida, de se representar, do seu próprio tamanho.
O paradigma atual em toda a sociedade é baseado na comparação; toda a nossa cultura é permeada pela comparação. Como tudo está em relação entre si, só conseguimos perceber as pessoas e as coisas em comparação umas com as outras e por modo associativo.
Sempre houve alguém na nossa história familiar que em um ou noutro momento nos foi apontado como padrão ou a quem fomos apontados como modelo. É imensa a carga de comparação a que somos diariamente submetidos.
Neste ponto intervenho para asseverar que de certa forma não há escapatória da inveja, visto nascermos em condição prematura, portanto precária, necessitando do outro para sobrevivência e construção de nossas referencias e matrizes. O sujeito se constitui no e do outro.
Os modelos de início, fundamentais à percepção e introjeção dos objetos necessários à formação do ego e do Self tem na comparação parâmetro de identificação objetal e posterior cisão entre estes e o ego, a desidentificação, tendo como pré-condição a ponderação entre objetos bons e maus, isto é, o que dá prazer e o que não dá prazer.
A escola como instituição tem seu sistema educacional baseado na comparação. Primeiro lugar, segundo lugar, último lugar, classes mais adiantadas, classes mais atrasadas, notas, avaliações, classificações, etc. a estrutura é totalmente baseada em padrões de comparação, disputas e prevalência da meritocracia precoce sem critério amplo e subjetivo.
Em nossa cultura, toda propaganda na mídia é baseada em processos comparativos entre nós e os modelos propostos. A trama-base de qualquer propaganda consiste em que olhemos alguém no vídeo, por exemplo, com todas as qualidades de riqueza, poder, prestígio, inteligência, dinamismo, beleza, força e magnetismo pessoal, nos comparemos com os ambientes e pessoas apresentados, que nos sintamos inferiores, magoados e diminuídos e em seguida, é-nos apresentada a solução para resolver o mal-estar: a compra de algum produto que nos fará iguais aos padrões apresentados! Não há dúvidas quanto ao nosso envolvimento social na comparação.
Boa lição apreendemos do Judô, o qual apoia-se na força do adversário e a utiliza em seu favor, indicando que podemos utilizar a força da comparação em nosso favor e não contra, pois os principais prejudicados na inveja patológica não são os outros, mas nós mesmos, apesar de início nos utilizarmos dela em seu aspecto como fator constitutivo.
Podemos sintetizar a inveja atual como o sentimento de rejeição corporal, psicológica, financeira, social, profissional e espiritual causando dependência moral e nos alienando ao “outro”, turbando nossa subjetividade.
Numa definição patológica, o Invejoso é aquele que, ao invés de sentir prazer com o que é ou tem, sofre com o que não é e com o que não tem. Uma das saídas pode ser a auto comparação, é claro que isso é possível num plano secundário, por isso estamos falando de inveja nos dias de hoje, viés sociológico, pressupondo pessoas com a base da psiquê formada. No plano individual e pessoal, a análise tem papel fundamental no processo de desidentificação e desalienação do sujeito.
Na auto-comparação, fortalecemos o self, nosso centro, ponto de equilíbrio. Passamos a nos dirigir a partir de dentro, em função do que realmente somos e não em função do que os outros são, do que poderíamos ser ou que esperam de nós.  A auto comparação é importante na medida em que com certa maturidade temos os elementos e as ferramentas adequadas para fazê-la sem distorções. Neste ponto a ajuda de um terapeuta é importante, pois proporciona balizamento equilibrado de nossas funções internas, nossa posição em relação ao sofrimento causado pela inveja em nós e no outro e como nos relacionamos com o desejo.
Por meio da auto comparação fortalecemos nossa identidade, reencontramos a nós mesmos, passamos a ser nosso próprio ponto de referencia, conquistando autonomia do ser. Cada pessoa tem seu ritmo, seu jeito, seu caminho, seu ponto de vista. Não estamos no mundo para sermos mais ou menos do que alguém, mas para realizar o próprio potencial, ser cada vez melhores, comparados a nós mesmos.
No fundo de cada sentimento de inveja, existe o sentimento de admiração, mas este só pode germinar quando centrado em nossa própria estatura, se estivermos em postura de aceitação pelo que somos, pelo que temos, pois admiração pelos outros mais tristeza de nós mesmos, é a inveja.
Beirando uma avaliação moral, amigo é o que fica alegre com a alegria do outro. O invejoso tenta roubar a luz, a alegria do outro porque não tem, e na insistência, uma atitude socialmente inaceitável não sendo resolvida internamente, acaba sendo concebida pelo indivíduo como aceitável e introduzida no convívio social causando conflitos permanentes e isolamento.
Melhor é tentar ser o melhor que pode, sendo você mesmo, e assim, produzir e amar.

Eliezer Andrade é psicanalista clínico e atende Online e presencial em Natal/RN
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